Vértebra Social

Ensaio em Ciclo – 1/3

Publicado em Vértebra por Vagner Heleno em 29/Outubro/2008

Parte I

A magia da infância está sendo violada pelas nossas aflições e isso é reflexo óbvio na sociedade. As crianças estão em completo conflito com suas necessárias descobertas, sem o alento dos pais, que se julgam sem tempo para os filhos, vão sendo educadas por televisão e padrões de moda e de comportamento cada vez menos maduros. Crianças que estão num período de descobertas, mas que estão descobrindo a vida, imitando o adulto, este que está em distúrbio moral e desligado de essenciais conceitos de vida, em exemplo: o respeito.

Começo essa reflexão apresentando a minha indagação. O que é ser pai? Pai, entenda-se por pai e mãe, tem o dever de educar, de guiar o filho até suas futuras descobertas e maturidade. Mas como fazer isso? Temos em nossos braços um ser que ainda não reconhece o mundo, mas que o sente perfeitamente. Logo, estamos lidando com alguém que não importa quem será, mas sim como chegará à ser. Já não mais ensinamos com amor, com o exemplo. Não conversamos com a criança de forma humana. Queremos que ele seja algo na sociedade, quase nunca para ele mesmo. Não escutamos a criança e ela, obviamente, precisará sentir-se segura de si um dia, e acaba por seguir padrões comuns na sociedade, padrões que já estão desvirtuados de respeito e honestidade.

Não tendo sanado uma necessidade espiritual de evolução, uma necessidade íntima que, por não ter sido fomentada com a leveza, mas sim com a cobrança, ver-se-á em desencontro. Este desencontro estará numa brecha de tempo única, a adolescência. Época para se descobrir o funcionamento do mundo, guiado pelos ensinamentos da infância. Mas, se a necessidade de evolução for burlada pelo desencontro do espiritual com o social, estará o adolescente guiado pela motivação de ser alguém na sociedade. E todos sabem o que nossos pais queriam dizer com “ser alguém na vida”. Estarão também com a conduta de relacionamento e os valores que aprendiam eram os de se sobressair, vencer a todo custo, ser aceito a toda prova, igualar-se sem questionar o que se é.

E então, um dia, adulto! Adulto? Cresce então um adolescente ainda sem o sentimento de responsabilidade humana. Não indagou à vida os seus por quês, que já calados foram desde pequenos. Já não mais serão pessoas que se descobrem, mas sim que seguem. O adulto está cada vez mais desumanamente criativo. Criam rotinas, problemas, questões, mercados, moedas papéis, dados, folhetos, diagramas. Ufa. E não tem tempo para si.

Julgam-se dono de verdades, conhecedores do funcionamento do mundo, de como são os valores. Que temos de vencer na vida, sua religião pede pelo vencer na vida, seu patrão pede para vencer na vida, não ser enganado jamais. Orgulhem seus pais! Não sejam bobos sentimentalistas!

Como esse adulto educará seu filho? Ele já sabe de tudo, ninguém pode saber mais que ele, muito menos uma criança. Uma criança que o afrontará com a velha e esquecida vontade própria e que receberá um “não, faz o que o pai mandou”. Os corpos em seus ciclos fecham seus laços nos filhos. O fim deveria encontrar o princípio ali, para dar a última pincelada de sabedoria. Mas eles sabem demais. Não tem tempo pra se preocupar com viver… Eles têm que sobreviver. Quem sabe um dia serão velhos e poderão ver que estiveram em desencontro, que deixaram de amar, que deixaram de passar aquele fim de semana no pic-nic. Que o trabalho os trouxe até ali… Não, eles trouxeram o trabalho até ali… E podem agora pagar pelo tempo perdido? Venceram pra quem?

continua no próximo post…

Parte 1/3