O Analfomegabetismo
“Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que, mesmo com a capacidade de decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças e textos curtos; e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos e de fazer as operações matemáticas. ” – fonte Wikipédia
Ler não é apenas decodificar símbolos, atribuí-los um som e, feito isso, um sentido unitário de palavra. Escrever não é apenas codificar sons ou pensamentos em símbolos e, símbolos unidos, formar um sentido singular de palavra. Ler e escrever é, não só um intercâmbio entre indivíduos (ou de temporalidade), um exercício da capacidade de raciocínio e de entendimento do mundo e de si.
No Brasil, 68% da população é constituída de analfabetos funcionais, com um adendo de 7% de analfabetos. Esta maioria, à qual ouso repousar o termo “massa”, não consegue extrair ou expor idéias compreendidas na língua escrita, tampouco de compreender as informações da televisão, rádio ou mesmo em palestras, conferências e fóruns.
É dito que a leitura não é vital ao ser humano, pois não o mantém, ao menos diretamente, vivo. Todavia, devo discordar expressamente desta opinião. Os cães não precisam de livros, sabem, instintivamente (ou já tem o conhecimento para tal) onde procurar seu alimento e, principalmente, não convivem em uma sociedade canina com uma gama de opiniões divergentes, poderes em desequilíbrio, formas de linguagem, sistema político complexo, etc.
Uso uma metáfora simples: precisamos chegar ao canto de uma sala. Para isso, organicamente, precisamos de pernas, pés e vitalidade para chegar lá, mas como saberemos que estamos indo na direção certa? Precisamos de visão, abrir os olhos ou acender as luzes, ver e analisar. Decidir o caminho e a direção correta do caminhar e seguir com o que o raciocínio estipulou como melhor a ser feito.
Logo penso, se para uma tarefa simples como esta, precisamos de um sentido e extrair deste sentido, tendo como ponte a subjetividade das informações que lhe chegam, uma diretriz que vá determinar o rumo e as conseqüências dos possíveis caminhos.
Além da alimentação, moradia e outros demais fatores para a sobrevivência do ser humano, precisamos que o uso dos sentidos e das faculdades mentais sejam utilizadas, plenamente, para a tomada de decisões que, sim (e muito), são vitais para o convívio harmonioso, justiça, evolução e para a construção de um modelo sustentável de convivência no Brasil e no planeta.
Certo estou de que podemos adquirir todo o conhecimento que se tem hoje que, no decorrer dos nossos milênios, nossa espécie adquiriu, sem ler. É óbvio que sim. Então na próxima vez que desejar construir um muro, construirei-o sem buscar informações em local algum, ao longo de várias quedas, hei de acertar o prumo e ele permanecerá erguido. Ou vou buscar, já que disponho disto, de informações em livros, por exemplo, para fazê-lo com um repertório de conhecimento talvez suficiente para deixá-lo erguido ou ao menos ultrapassar uma série de erros primários de engenharia?
Não é diferente na nossa sociedade. Para formarmos uma sociedade sólida, igualitária, estabilizada ou qualquer outro adjetivo que expresse um atributo à incansável sede de perfeição e harmonia no nosso habitat humano, precisamos, todos, de conhecimento e isto pode ser adquirido na literatura, teórica ou não. Seja lá que tipo for, mas desde que ela informe, que repasse um sentimento, idéia, contexto; que dê ao leitor a capacidade de ver o mundo, sair da caverna, observar com critérios a nossa sociedade. Interpretar o cotidiano, o dono da padaria, a notícia no jornal impresso, a receita do bolo atrás do pacote de farinha.
Mas que saibamos a importância que tem o conhecimento e o entendimento do mundo. Para nós Humanos, é orgânico. Precisamos saber para crescer como humanidade. E a leitura e o hábito da leitura não deixará caducar nossa capacidade de decidir o rumo de nossas vidas amesquinhada pelo tempo em que se vive repetindo e seguindo a corrente da massa.
Bertrand de Mandeville escreveu que “para que o povo viva contente mesmo numa situação miserável, é preciso que a maioria continue ignorante e pobre” e conclui que “o saber aumenta e multiplica os nossos desejos, e, quanto menos um homem desejar, mais fácil é satisfazer as suas necessidades”. Entendo este “saber” possa, e claramente é inegável, ser construído a partir da leitura ou arraigado nos livros como fonte, ponta-pé inicial para um saber mais amplo. Nas conversas, trocas de informações.
Me preocupa um futuro de analfabetos funcionais, saberemos ler as ordens e não saberemos senti-las, somente efetuá-las. Escreveremos a carta ou e-mail e não saberemos expressar. Veremos o tempo passar e não seremos capazes de participar da história, nem da própria história provavelmente.
Seremos tão somente passageiros do cruzeiro de Caronte até o nosso grandioso inferno de incapacidades e imperícia no que deveríamos de ser protagonistas, o viver. Seremos tão somente vítimas do nosso descaso e deixando por acaso a nossa vida escapar numa centena de páginas em branco.
