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25/fevereiro/2010 / Vagner Heleno

Divino Aborto

É tediosa a discussão entre religião e ciência. Tediosa pois não é diálogo, no sentido “aurélico”, verdadeiro, da palavra;o que se ouve sempre e constantemente é tão somente uma discussão estilhaçada de vitrais coloridos e tubos de ensaio. Uma tinhosa briga por razão, pela fatia do mercado das idéias e de seguidores, fanaticamente temperamentais ou fanaticamente lógicos demais. Uma batalha (i)meritosa de retóricas extensas e sonolentas.

Me pergunto: “onde o ‘deus’ nasce?”. Nasce nos primórdios da nossa “homo sapiência”, quando a nossa capacidade cognitiva começa a se formar. Assim passamos a criar ferramentais para a caça, por exemplo. Começávamos a controlar então o fluxo da nossa “sorte”, observamos e buscamos construir utensílios para facilitar o alcance de objetivos simples. Mas, nesse burburinho de pequenas invenções para caçar, agasalhar-se e tudo mais, observávamos, sem compreender sua mecânica, que hoje nos aparenta ser tão simples, fenômenos como a chuva, o dia, a noite, etc.

Imagine-se sem conhecimento algum, nem fontes de informações nem nada, no nada, na mais paleolítica das situações. E tente-se explicar a chuva. O sol que ilumina a noite e lhe protege dos perigos noturnos. Não é de outro mundo isso? Claro, isso é coisa de “Deus”! E criam-se os deuses. Da chuva, do sol, da noite, da agricultura, da caça, etc.

De forma alguma questiono a legitimidade da idéia de haver um Deus criador de tudo e do todo. Nem do contrário. Só que essa rinha de galos entre religião e ciência são plenamente complementares. Se Deus fez que caia a chuva, a ciência explica seu mecanismo, se cria o dia e a noite, a ciência explica o mecanismo de rotação e translação do planeta, e ponto.

Há pouco tempo, quando caminhava na volta para casa, pensei que se alguém voltasse no tempo e explicasse o porque da chuva para um paleolítico homem, abortaríamos o nascimento de inúmeros endeusamentos por insuficiência de cognição humana na sua raiz. O sol esquenta, a água evapora, no céu se acumula, e no fim da reunião acinzentada, defenestra-se, precipita-se ao chão, rega plantas em larga escala, as fazem crescerem e florescerem e frutificarem, e o lençol freático e o rio e o ciclo. Ponto. Mata-se deus no seu embrião, ao menos o Deus da Chuva.

Não há nada de escabrunhoso em dizer que deus criou ou não criou, que certeza se tem de alguma coisa? Nenhuma. A incógnita de existir, a idéia do princípio e do fim não está para nós, no momento, como questionamentos a serem respondidos com certeza categórica. Não saberemos ao longo de plenas eras e milênios donde partimos, sempre existirá uma pergunta no infinito à esquerda.

Se Deus existe, quem ou o quê o criou? Donde veio? Onde estava? E o Big Bang? Que era antes de estourar como universo em expansão? Expande-se onde? Quem o tocou e o moveu para que estourasse nessa farra cósmica de átomos e supernovas?

Compreendem? Religião e ciência são complementares, a mesma face da moeda.
Numa face a cognição humilde da unidade entre conhecido, reconhecido, desconhecido e a curiosidade que nos move sem arrogância às descobertas inocentes da realidade. Na outra face, esta corja de fanáticos cheios de razão de si e que aguardam serem sobrepostos por teorias mais corretas e por aceitações mais numerosas da massa de homo sapiens sapiens que acham que sabem tudo.

Sócrates era o cara e fez a tempo o que o tempo nos faz temer. Tomou a última dose, uma cicuta venenosa sabendo que não sabia de nada.

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